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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Policarpo Quaresma, do CPT

Eduardo Araújo, do blog revide
01.06.2010


A grata surpresa de ver em cena diversos atores, em tempos de tantos monólogos. É que quero ver o balé, a contradança, a movimentação ativa e pulsação da vida posta em cena, do palco e seu impacto, o contracenar. Os ternos negros dos homens, as claras roupas das damas, e já estamos num novo século. Tudo é limpo no tablado do Antunes, tudo é dado por objetos mínimos, que entram e saem, por figurinos precisos, e pelos corpos.

Eu queria era saber não só o nome do Lee Thalor, mas dos demais, pois se o trabalho dele é puro primor, o desempenho de tantos outros atores mereciam crédito. Tinham que pôr no jornal os rostos, com legenda e creditar: a voz do cantor de modinha, o sapateado coletivo, o tango e seus rodopios, a preta-velha meio-senil e de jacosas canções, a dicção incrivelmente impostada do especialista e dos políticos, aquele outro ator cujo corpo desliza sinuoso, todo pura ironia física. Mas a gente vai entender que a peça é esse todo coeso, articulado e belo. Eu vejo ali a mão do rigor do Antunes, um outro tipo de teatro político mas sem bandeira, posto que alinhava uma peça onde o Brasil-que-agora-vai (da República recém-fundada) pisca para com desconfiança para o Brasil-que-agora-acha-que-está-indo (de hoje). Antunes faz dançar nossas ingênuas crenças, utopias, o bonito sonho lesado de Policarpo na ironia difícil de Lima Barreto.

No entanto, a batuta de Antunes não pesa, não há no ator as cordinhas que vejo no trabalho de diversos diretores; pois em Policarpo cada ator mostra-se presente inteiro, dando-se ao melhor entendimento do ser que encena. Cada um está todo, na composição, sem despencar do papel, sem afrouxar a representação. Há rigor mas não vejo rigidez. O corpo flui com naturalidade, como se não houvesse marcas, como se não fora meticulosa a coreografia dos passos, no palco limpo, afora seus confetes, nuvens de fumaça (um lindo efeito cênico) feito com talco, no ar.

Em Policarpo Quaresma tudo é exato desde a primeira sílaba. E eu confesso o impacto que tive ao ouvir a dicção daquela atriz que faz a noiva que enlouquece, que sem ser linda, fica a mais linda mocinha destinada ao melancólico fracasso. A voz dela, de abrir espaços, vaguidões, de dar a dimensão de um tempo que não há mais. E há ali atores que souberam trazer na voz um modo de ser que não há mais, uma nostalgia que aparta o tempo da peça do nosso tempo. Estamos diante de uma representação, e por isso afrouxam-se as coordenadas da trama do romance de Lima Barreto, cuja adaptação permite-se infiel (até no desfecho), mas que mantém intacto as grandes passagens fulgurantes, simbólicas, como do ataque das formigas.

Adaptando uma obra em que humor, sarcasmo e melancolia se somam para desvendar um Brasil que se inaugura com reconfiguração de forças já viciadas, Antunes opta por compor quase um musical, mas não sei que ponto possa (como li) confundir-se com chanchada, onde, até onde alcanço, o enredo diluía-se ante a música e a mise en scene. Em Policarpo, o tom nunca é absolutamente caótico, se há cortejos, bailes, noivados, batalhas, corsos de loucos, sapateados, tangos, tangolomangos, se organizam com beleza e nunca se perdem sem significação para o conjunto (e o que se conta/encena). Há, aliás, momentos de bela quietude e lirismo. Policarpo Quaresma é uma peça que faz também por esquetes, cenas dinâmicas que se desarmam em passagens poéticas que remetem ao Amacord de Fellini, até pela trilha da peça à Nino Rota. É um pulsar de situações cômicas, patéticas, líricas, surreais, alegóricas. O compromisso nenhum com resconstituição de época, de panfleto, embora se demore - talvez em demasia - no impacto da violência da guerra, na estupidez do poder, na explicitação do desencanto (que sim, está no livro), de um Quaresma que toma consciência de seu idealismo sincero frente ao nacionalismo oportunista e hipócrita dos políticos, o ufanismo cego ao qual a massa adere.
Bonito demais o encadear de hinos do Brasil, tudo evocando crenças desfeitas, uma ingenuidade perdida, uma ironia grande com o presente em que se descrê do coletivo, da idéia de nação só recuperada em épocas de Copa, com o futebol. Mas não é disso que trata a peça, da volubilidade de nós brasileiros em relação ao país. Do fracasso das crenças nas virtudes da terra, na validade das ações, no puramente nacional (que não há); crenças que desabam, no amor, na pátria, no olhar ingênuo em meio ao mare magnum das transformações.
Partindo da alegria rumo ao desencanto; do delírio de felicidade à tomada de consciência; da eloquência inicial à voz que se silencia no ruir das esperanças (no grito da noiva desamada / no Quaresma lúcido e calado à força), a montagem do CPT não nos reserva um desfecho moral, um ensinamento apreensível. Não denuncia, não levanta bandeira - talvez sim, contra a politicagem corrupta e oportunista. Mas é uma peça sem vitória, sem solução fácil, pois ainda que Quaresma termine um Quixote lúcido, suas batalhas perdidas nos enterram na desilusão do quão pouco somos diante de um país cujo destino não está mesmo na mão de nós cidadãos.

Só o fato de existir um CPT é que nos lembra que sim, o Brasil é por demais interessante. Para além da nossa impotência e o desmando dos poderosos, há sempre algo que se articula, brilha e nos revela com o uma nação com artistas talentosíssimos, que com originalidade revelam/desvelam um tanto mais o que somos.

Com gestos que parecem mágicos, cores sutis, objetos mínimos, os atores do CPT fizeram da ida ao teatro uma arrebatadora forma de felicidade.

Policarpo Quaresma, um encontro de gênios



Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil



Uma, de muitas, cenas antológicas de "Policarpo Quaresma"


A boa notícia vinda do CPT, que ocupa o Teatro Sesc-Anchieta com Policarpo Quaresma, com texto de Antunes Filho baseado no romance Triste Fim de Policarpo Quaresma do, também genial (mas, injustiçado), escritor Lima Barreto, vai ganhar mais algumas semanas naquela sala, graças ao sucesso de público, até o fim de julho.

Policarpo Quaresma é mais uma prova irrefutável da ebulição criativa que agita nosso mais completo, lúcido e coerente encenador Antunes Filho, senhor absoluto da caixa preta que ele sempre povoou de movimentos, luzes, cores e sons, em montagens antológicas, em seus mais de 50 anos de uma carreira sem hiatos.



"Policarpo Quaresma" é a nova pérola da coleção de obras-primas de Antunes Filho.

Porque, ao contrário do que alguns críticos (as) gostam de afirmar levianamente, ignorantes do currículo ao vivo de Antunes, certamente na puberdade quando, por exemplo, São Paulo, depois o Brasil e, por fim, o mundo, assistiu Macunaima, na década de 70 do século passado, o mestre jamais deixou de surpreender, pelo simples fato de jamais deixar-se acomodar em fórmulas por ele mesmo criadas (e recriadas) incansavelmente.

LIMA BARRETO, DE TALENTO RECONHECIDO POSTUMAMENTE

Ao sabermos da árdua batalha do pobre e negro Lima Barreto, com talento talhado por Deus para a Literatura, não fica difícil imaginar a angústia que lhe ia pelo peito por toda a sua curta e atribulada vida, marcada por tragédias familiares e pelo vicio da bebida.

Aquele preconceituoso e medíocre Rio de Janeiro da sua época, não o impediu, porém, de exercer com coragem seu caráter reivindicatório, defendendo em suas obras a solidez moral dos desvalidos em inglória batalha contra o cinismo dos poderosos de plantão, lá como agora.

Com traços autobiográficos do escritor, a jornada patriótica de Policarpo Quaresma teve em Antunes Filho, nesta pungente visão teatral (Policarpo Quaresma), um arguto adaptador da prosa descritiva e essencialmente literária do formidável Lima Barreto.

Todo aquele povo, em todas as esferas sociais, políticas e militares, minuciosamente analisado e recriado pelo romancista com sua singular visão humanista, teve, por sua vez, no teatro, em Rosangela Ribeiro, uma figurinista estonteante e delirante, às vezes, em outras ladeando ou se sobrepondo mesmo ao trotear expressionista de Antunes, esculpindo personalidades num piscar de olhos, como nos quadros dos grandes pintores.

Exercendo o vertiginoso jogo lúdico de trocas de figurinos e de “personas”, o numeroso elenco tem grandes momentos de “flashes cenográficos” e nas irrepreensíveis marcações coletivas, onde o toque de gênio de Antunes se aprofunda a cada peça.

O rendimento do elenco alça todos ao nível da excepcionalidade. O que não nos impede de ressaltar a concepção de Lee Thalor para o protagonista Quaresma, dando-lhe tocante verossimilhança em sua crença tão ingênua quanto intensa – jamais caricatural – de pungente determinismo patriótico.

A grata surpresa corre por conta das luminosas aparições de Geraldo Mário, um dos mais constantes colaboradores de Antunes Filho, como a velha escrava desmemoriada e, depois, como o vivido preto velho Anastácio, paciente auxiliar de Quaresma na fase agrícola.

Antunes Filho está muito bem acompanhado por todo aquele batalhão de escultores da perfeição refletida na montagem: o CPT do Antunes Filho mais uma vez disse a que veio!

Policarpo Quaresma /Teatro Sesc-Anchieta/ Rua Dr. Vila Nova, 245 /telefone 3234-3000/ 6ª. e sábado 2l h –domingo l9h/ R$ 20,00 (inteira) / 12 anos /100 minutos/ até fim de julho.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A vida inteira que poderia ter sido - e é

Por Guilherme Conte
Seção: Só uma opnião
24.maio.2010


“O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se se transpuserem para ela os princípios do ideal, as qualidades transformam-se em defeitos, de tal modo que, muito frequentemente, o homem íntegro obtém menos sucesso que aquele que se motiva pelo egoísmo e pela rotina vulgar.”
A frase de Ernest Renan, extraída por Lima Barreto do volume Marco Aurélio para tornar-se epígrafe do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, é um farol que ilumina mais aspectos do que se poderia supor inicialmente.





Derradeira parte da trilogia em homenagem ao Rio de Janeiro construída pelo diretor Antunes Filho à frente do CPT ­ – precedida por A Falecida Vapt-Vupt, a partir de Nelson Rodrigues, e o musical Lamartine Babo –, a peça Policarpo Quaresma, em cartaz no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, ancora-se sobre um aparente paradoxo essencial.

A escolha pela obra-prima de Barreto, uma ideia que Antunes já carregava há algum tempo, denota um profundo e sólido descontentamento com o estado de coisas. Não há nenhum rastilho de inocência em dar voz ao major Policarpo ­– um personagem que, para o diretor, está no mais alto panteão da literatura brasileira, ladeado por gente como Quaderna e Riobaldo.

“Ao ficcionalizar as origens da República brasileira, o romance de Lima Barreto estabeleceria alguns padrões definitivos para o debate social por meio da arte”, escreveu o crítico Ivan Teixeira. Editado pela primeira vez em 1915, o livro surgiu como uma voz firme denunciando o pacto sociopolítico que tecia o grito republicano. Se, para todos os efeitos, as práticas políticas assumiam novas configurações, os círculos de poder prosseguiam absolutamente comprometidos com os interesses das mesmas velhas oligarquias.
Isso evidencia não um caráter atual do livro, mas sim atemporal. A indignação do major Policarpo encontrará eco enquanto a “inconveniente vida real” de Renan for marcada por um largo hiato entre o que as coisas são e o que poderiam ser. É nesta não-concessão para com aqueles que sufocam nossos heróis que se funda o compromisso ético de Antunes.



O aparente paradoxo se faz quando toda esta história é apresentada com o habitual esplendor cênico que emerge de seus trabalhos. Policarpo pulsa em um ritmo vibrante, profundamente musical, um burilado artesanato que representa o teatro de Antunes Filho em seu estado mais puro.
É não menos que um privilégio poder ver um genial criador fazendo um passeio por seus 80 anos de vida. As deliberadas e bem trabalhadas autorreferências fazem deste Policarpo uma síntese da carreira de um diretor que rompeu tantas barreiras em suas proposições estéticas.
Está tudo lá, capitaneado por um Policarpo de carne, osso e sangue vivido por Lee Thalor, que sublinha outra vocação de Antunes: um olhar sensível para transformar grandes atores. Destacar sua atuação, ainda que primorosa, chega a ser quase uma injustiça, em uma montagem cuja força nasce de um muito bem orquestrado trabalho de conjunto.
Se o começo dos anos 2000 marcou um mergulho do CPT nos clássicos ­– com espetáculos como Fragmentos Troianos, Medéia e Antígona –, essa trilogia de alguma forma representa a entrega de Antunes a seus “clássicos afetivos”, uma homenagem não só à cidade do Rio de Janeiro, mas a uma época e a um grupo de amigos fundamentais em sua vida e obra. Uma generosa reverência a mestres como Ziembinski, Décio de Almeida Prado e Cacilda Becker.
Por fim, a escolha de Policarpo Quaresma para este grande balanço subjetivo que é o espetáculo guarda outra curiosa peculiaridade entrelaçada com a vida de Antunes. Se a peça que o firmou como diretor, em 1978, foi Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, um círculo se amarra com a montagem deste Policarpo, o herói de caráter total, como certa vez apontou o ator Paulo José, que viveu ambos no cinema.
Nossos heróis são, afinal, mais do que nunca necessários.

link:http://blogs.estadao.com.br/teatro/2010/05/24/a-vida-inteira…a-ter-sido-e-e/

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Policarpo Quaresma e Lamartine Babo por Lenise Pinheiro

O olhar de Lenise Pinheiro (Folha de S. Paulo) sobre Policarpo Quaresma e Lamartine Babo:

www.cacilda.folha.blog.uol.com.br - veja as fotos dos espetáculos nas postagens dos dias 6/05 e 29/04

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Aos 80 anos, Antunes Filho defende papel de sua arte de formar consciências




O GLOBO - Marcia Abos e Gilberto Scofield Jr.



SÃO PAULO - Num dos pontos altos da peça "Policarpo Quaresma" - baseada no romance de Lima Barreto e que encerra a famosa "trilogia carioca" do dramaturgo e diretor Antunes Filho, iniciada com "A Falecida Vapt-Vupt" e "Lamartine Babo" -, o personagem principal, interpretado por Lee Thalor, executa um genial sapateado ao som do Hino Nacional. Ali, naquele domingo à noite no palco do Teatro Anchieta, onde a peça está em cartaz, o major Quaresma deixa clara sua inquietude com a ainda nova República, as formigas que destroem sua frustrada plantação e as tiranias e corrupções da política numa dança raivosa, revoltada e perplexa com o mundo à sua volta.
Na manhã do dia seguinte, no sétimo andar do prédio do Sesc Consolação, onde funcionam o teatro, o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc e o Grupo Macunaíma, todos sob o comando de Antunes, quem recebe a reportagem do GLOBO de jeans e camiseta de campanha ecológica é um senhor grisalho, alegre e sorridente, disposto a explicar sua trilogia de paixão pelo Rio e pelo teatro de maneira filosófica e incondicional. Mas se engana quem pensa que um dos mais ativos diretores brasileiros de sua geração é um suave e cínico encenador profissional. Bobagem. Aos 80 anos, Antunes Filho executa seu sapateado de palavras com as mesmas revolta, perplexidade e frustração que seu major Quaresma. Como da primeira vez em que trabalhou com grupos de teatro amadores, ainda na década de 1950.

- Eu odeio a ideia de envelhecer - diz ele, batendo na mesa. - Porque a missão do teatro não é só formar o público. É formar consciência também. Consciência de que este país anda em direções contrárias nas suas ambições culturais: financiando iniciativas culturais ao mesmo tempo em que despreza a educação de sua população. O ator e o diretor estão no palco para doar, e esse é o manto sagrado da criatividade. É preciso mostrar para essa gente quem é Lima Barreto porque a dramaturgia da TV é imediatista, busca audiência e presta um desserviço à cultura - dispara, como num sapateado louco.
Antunes Filho, no entanto, é generoso com o Rio, cuja memória ajudou a gestar sua trilogia. Diz que o público paulista precisa conhecer Nelson Rodrigues, Lima Barreto e Lamartine Babo, e que guarda boas lembranças de uma cidade onde desfilava com amigos como Clarice Lispector ("minha comadre"), Paulo Pontes, Antonio Callado e Vianinha. Lembra que o Rio era uma cidade onde ele dormia cedo. Quer dizer, de manhã cedo, depois de amanhecer após noitadas nos botecos da cidade.
- O Rio para mim é um local muito especial. Hoje em dia, não saio de São Paulo. Não é que eu não vá ao Rio para ir para Paris. Não vou nem a Paris. Mas o Rio era a capital federal, o centro do Brasil, para mim, o centro da América do Sul, e eu queria fazer uma homenagem que aconteceu quase por acaso com o Nelson Rodrigues. Depois veio o Lamartine, e depois outro LB (Lima Barreto), então pensei: é uma trilogia carioca. Inconscientemente, fui levado ao Rio - diz ele.


Rusga com Barbara Heliodora

De estranhamento com a cidade, só a relação com a crítica de teatro do GLOBO, Barbara Heliodora, marcada, segundo ele, por "dois acidentes":
- Sabe por que ela pega no meu pé? Há muito tempo ela me convidou para ser jurado de um prêmio. Votei a favor de uma peça que depois soube que era do Dias Gomes. Ela queria outra peça, e todo mundo concordava com ela, menos eu. Na mesma época, ela fez um livro sobre os diretores do Brasil e não me colocou. Fui lá na redação cobrar. Eu era moleque e queria um lugar ao sol - conta.
Mas Antunes se define como um homem "aberto e alavancado" pelas críticas. Lembra com saudade dos críticos Yan Michalski e Sabato Magaldi, que, em um primeiro momento, negaram os processos radicais de laboratórios aplicados ao elenco de "Vereda da salvação" (1964). Na manhã da entrevista, o encenador deglutia as duras críticas de Luís Antônio Giron, da revista "Época", que acusou o teatro brasileiro de falta de criatividade "por esgotamento de inspiração ou de recursos".
- Achei a crítica genial. Não sei nem quero discutir se ele tem ou não razão. Ele nos leva todos a repensar. Temos que nos perguntar para que e por que fazer teatro. Ele me provoca, e eu quero estar acordado diariamente - afirma o diretor. Gratidão a Stenio Garcia
Após assumir que misturou "tudo o que sabe de teatro" para criar "Policarpo Quaresma", Antunes diz estar em crise, sem saber ainda que rumo tomar. Mas sua trajetória de mais de meio século de teatro mostra que esta perplexidade vai durar pouco. Afinal, é um homem que não aceita perder a capacidade de estar no palco.
- Temos uma relação viva com a plateia. O ator está no palco para doar, não para arrecadar. A única atitude digna que vejo no homem, épica, é na doação. Se é para arrecadar, você é o homem do não. A minha razão de fazer teatro é doar. Óbvio que receber aplausos e parabéns é bom. Mas essa não é a finalidade. - diz ele.
Quando Antunes discorre sobre pessoas que, de alguma forma, o inspiraram, oferece sua gratidão a Stenio Garcia e Ziembinski. O primeiro incentivou o diretor à experimentação, como assistente de direção de "Vereda da salvação". Já Ziembinski, de quem Antunes foi assistente em 1952 no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), apresentou-lhe o universo de Nelson Rodrigues.
- Stenio Garcia é um dos atores que mais admiro. Ele pode participar de tudo o que quiser da minha vida. Ajoelho e falo: "Obrigado, Stenio, você foi um cara maravilhoso na minha vida". Para Ziembinski, ia buscar café e sanduíche todos os dias, observava-o se maquiando. Nem todos puderam perceber, porque ele falava meio enrolado, meio polaco, mas era um ator extraordinário - diz.
Definindo-se como um homem do século XX, Antunes não se deslumbra com a revolução tecnológica. Nunca teve automóvel, celular ou internet (Twitter, nem pensar) e mantém uma rotina de hábitos simples, que inclui um expediente diário de mais de nove horas de trabalho no CPT, idas ao teatro - "Assisto a tudo, até para poder falar a respeito" - e leituras. Experiência humana vale mais que a teatral
Apesar de ter sido um dos fundadores do teledrama na TV, como produtor e diretor de teleteatro ao vivo nas TVs Tupi e Cultura, Antunes não se conforma com a situação atual da teledramaturgia brasileira:
- As telenovelas são um desserviço não somente à cultura, como também para essa molecada (atores). Leva-os a um naturalismo vazio, a interpretar de maneira vazia e simplesmente natural. Ser natural serve para agradar à vovó, à titia, que olham e dizem: "Que gracinha, que menininha natural!". Atores têm que tomar cuidado para não virar gracinhas. Ninguém é contra os atores fazerem TV, ganharem melhor, mas atuar não é simplesmente ser gracinha - ensina. Quando alguém pergunta como é ser um mito do teatro aos 80 anos, a resposta é enérgica e indignada:
- Odeio ter 80 anos. Odeio a velhice. O que eu gosto não é da experiência teatral, é da experiência humana que tenho por causa do teatro. Não me interessa nem o teatro. Teatro é um meio, não um fim. A vida para mim é tudo, é fundamental. Adoro o movimento da vida. O teatro é só o veículo que eu encontrei, é o meu patinete - diz.
Crédito das fotos: Eliária Andrade e divulgação.

domingo, 18 de abril de 2010

Policarpo Quaresma levado a sério


Em adaptação do texto de Lima Barreto, o diretor Antunes Filho valoriza as nuances do original
Gilberto Amendola, Jornal da Tarde
Para São Paulo nunca mais ignorar o escritor Lima Barreto. Essa é a força motriz do novo espetáculo de Antunes Filho, Policarpo Quaresma, que estreia hoje no Teatro Anchieta, às 21h. “É incrível, mas quase ninguém conhece Lima Barreto por aqui. As pessoas só costumam falar de Machado de Assis. Daí, eu pergunto? Quem será melhor: Machado ou Lima? Pergunto mas não respondo”, brinca o diretor da peça.Policarpo Quaresma é a adaptação de Antunes para o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, escrito por Lima, em 1911. O livro, assim como a peça, narra a história de um patriótico funcionário público que sonha em ver o Tupi-Guarani transformar-se na língua oficial do País. Seria a montagem de Antunes uma metáfora relacionada ao Brasil do pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíada e crescimento econômico? “Sabe que no início dos ensaios eu até tentei criar um link entre o texto do Lima e essas atualidades?”, conta ele. “Mas, no processo, descobri que não era preciso. O que estava escrito no livro era suficiente. Já era um retrato atual e perfeito da realidade brasileira”.Diferentemente de outras versões de Triste Fim de Policarpo Quaresma, Antunes não transforma a alienação/obsessão do personagem em algo risível ou patético. “Existe essa tendência, essa visão em relação ao Policarpo. O espetáculo tem humor, tem elementos da Comédia Dell’arte, do circo, do Teatro de Revista e das operetas, mas o que me interessa são as tragédias provocadas por essa postura do personagem". A montagem de Policarpo Quaresma é a última parte da trilogia carioca criada por Antunes. O diretor já homenageou Nelson Rodrigues, com o espetáculo A Falecida Vapt-Vupt; e Lamartine Babo, com texto homônimo. “Essa foi a minha homenagem ao Rio e aos cariocas, mas não ao Rio de Janeiro da praia. O meu Rio, o que se encaixa em Lima Barreto, Nelson Rodrigues e Lamartine Babo, é aquele da boemia dos bares”. O Policarpo Quaresma de Antunes, interpretado pelo ator Lee Thalor, tem na figura histórica do Marechal Floriano Peixoto (primeiro vice-presidente e segundo presidente do Brasil, entre 23 de novembro de 1891 e 15 de novembro de 1894) sua principal fonte de inspiração. Durante a temporada da peça, ocorre, no hall do teatro, uma exposição com 20 maquetes criadas por jovens cenógrafos a partir das obras de Lima Barreto.
DIVIRTA-SE
Policarpo Quaresma. Teatro Anchieta: Rua Dr. Vila Nova, 245. 3234-3000.Sex. e sáb., às 21h; e dom, às 19h. Preço: R$ 20.12 anos

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Policarpo em cinco olhares


O mais recente espetáculo do encenador Antunes Filho, de 80 anos, visto por especialistas

Dib Carneiro Neto - O Estado de S.Paulo

Síntese de uma trajetória retumbante. Exemplo do vigor criativo de um encenador em plenos 80 anos de vida. Lição de bom teatro que se alia a múltiplas linguagens artísticas. Soco na boca do estômago do público interessado em entender o Brasil de ontem para discutir o país de hoje.
Assim surge Policarpo Quaresma, de Antunes Filho. Com sessões que andam lotando o Sesc Consolação e aplausos em cena aberta, o espetáculo enobrece os palcos paulistanos com momentos de genialidade. "O teatro faz justiça a Lima Barreto (autor do livro Triste Fim de Policarpo Quaresma)", escreve Jefferson Del Rios. "Uma encenação que engrandece o desejo", opina Mariangela Alves de Lima. "Há algo de diferente no sólido percurso do diretor", comenta a crítica de dança Helena Katz, encantada com os cortejos. "Antunes está mais viscontiano do que nunca", compara o crítico de cinema Luiz Carlos Merten. E um crítico convidado, o ator e diretor César Augusto, arremata: "Bom para o teatro, bom para o cidadão."
POLICARPO QUARESMA
Sesc Consolação. Teatro (320 lugares). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 6/6.

Crítica: Luiz Carlos Merten
COM O MÍNIMO, ANTUNES CHEGA AO MÁXIMO
Podem-se buscar, e não será muito difícil encontrá-las, as referências cinematográficas na deslumbrante adaptação que Antunes Filho faz de O Triste Fim de Policarpo Quaresma para o teatro. Dos irmãos Marx a lampejos de Luchino Visconti, Joaquim Pedro de Andrade e Federico Fellini, tudo está lá no palco do Sesc Anchieta, mas é bom não perder de vista a essência da montagem e ela é essencialmente teatral. O grande diretor Gabriel Villela, embora apaixonado por cinema, gosta de brincar, dizendo que o problema do cinema é a eletricidade. Basta tirar da tomada e não existe mais filme. O teatro independe disso. Pode ser encenado à luz de velas, nas ruas. Tem luz própria.
Antunes Filho sabe disso - e o mais extraordinário na criação dos coros, que é sua marca (a maneira de deslocar e imobilizar grupos de atores, a oposição entre o movimento individual e o coletivo etc.), é justamente a nudez que ele impõe ao seu palco. Não existe cenografia em Policarpo Quaresma. Ou melhor, existem adereços, objetos e o próprio corpo dos atores é que constrói a cena aos olhos do espectador. É quando Antunes é mais viscontiano. O mestre, numa fase de sua carreira, antes da descoberta da lente zoom, dirigia sua câmera basicamente para o corpo dos atores e fazia um cinema que chamava de "antropomórfico". Visconti era grande diretor de teatro, cinema e ópera e, embora não se possa dizer que Patrice Chéreau seja seu discípulo, essa qualidade, ou característica, ele herdou no mais fulgurante dos seus filmes, A Rainha Margot.
O livro cultuado de Lima Barreto já havia sido adaptado para o cinema por Paulo Thiago em 1998. Paulo José fazia o herói do Brasil, subtítulo aplicado a Policarpo Quaresma. Thiago é mineiro, como Joaquim Pedro, que também adaptou para a tela outro clássico da literatura, o Macunaíma de Mário de Andrade. Apesar das diferenças entre ambos, Macunaíma e Policarpo são heróis brasileiros devorados pelo Brasil. Antunes já havia feito o seu Macunaíma no palco. Surpreende agora que ele faça Lima Barreto dialogar com Mário de Andrade? Que o seu Policarpo, de alguma forma, seja a revisão de Macunaíma?
A crítica não foi para o papel nem para a internet, mas uma voz solitária reclamou de que a encenação de Policarpo Quaresma, o grande teatro de Antunes Filho, é coisa morta. Só pode ser brincadeira. Antunes, aos 80 anos, realmente debruça-se sobre si mesmo - e seu método -, mas não é para se (auto)plagiar. E a cena da saúva, as batidas ritmadas com o pé e, depois, o Hino Nacional, são coisas de gênio. Havia, desde o início, um grande desafio a encarar e era justamente a natureza da própria obra de Lima Barreto. Policarpo Quaresma é um livro muito descritivo. Carece de diálogos, ou pelo menos os reduz ao mínimo. Antunes e seu elenco tiveram de transformar descrições em diálogos/cantorias, ou então de sugerir cenicamente o não dito. Como se faz isso? Como se constrói uma dramaturgia que não seja só da palavra?
Policarpo Quaresma leva ao limite a arte da mise-en-scène. Com o mínimo, Antunes Filho alcança o máximo de resultado. Seus cortejos deslumbram os sentidos. Emocionam - nem o distanciamento crítico brechtiano significa que o espectador não deva se envolver nem se emocionar com o que se passa no palco. Toda essa pesquisa teatral se consolida nos atores. O elenco de Policarpo também é coral. Há um solo apenas, e é o do ator que faz o protagonista. Lee Thalor, que já havia feito Quaderna na Pedra do Reino de Antunes, não apenas corresponde como se supera. O mestre depurou seu discípulo. O criador e a criatura. Policarpo Quaresma não seria a mesma coisa, no palco, sem a potência criativa de Thalor.
Em A Pedra do Reino, Antunes já optara pelo palco nu, transformando-o numa representação da mente de Quaderna. Talvez seja o mistério, ou segredo, desse Antunes octogenário e talvez testamental que decifra os grandes textos definidores da cultura brasileira. O teatro de Nelson Rodrigues, a literatura de Ariano Suassuna, Mário de Andrade e Lima Barreto. Policarpo dialoga com Macunaíma e Quaderna. Este último sonha com um país em que o povo reina. Como Macunaíma, ele carrega um arquétipo, o do herói sem caráter, Quaderna encarna o herói do "nenhum esforço", que acredita na utopia e que nunca vai parar. Policarpo difere de ambos para terminar igual. Ele é um patriota exacerbado, acredita que a utopia se constrói com esforço. Sonha com o tupi-guarani como língua de todos os brasileiros e tem planos para salvar a agricultura nacional.
Vai parar no hospício, as saúvas destroem sua plantação e ele próprio é devorado por um mundo que o hostiliza porque ele insiste em mudá-lo, quando seria mais fácil permanecer imóvel, gozando de benefícios. É aí que Policarpo Quaresma transcende o evento que é, no palco, para propor uma discussão ou interpretação do que seja o Brasil (e o brasileiro). Antunes não é um celebrador de Dioníso. Faz grande teatro para pensar sua arte, o País (e o mundo). Policarpo é um espetáculo/síntese do autor e da própria cultura brasileira, que ele vem enriquecendo.

Crítica: Helena Katz
USO DO CORPO É O QUE CONSTRÓI A DRAMATURGIA
Lee Thalor sapateia nas formigas e no Hino Nacional. Eis a síntese mais precisa do que se vive por aqui desde a Proclamação da República. Cena genial do oportuno Manifesto Policarpo Quaresma que Antunes Filho e os preciosos atores do Grupo Macunaíma acabam de escrever com o seu teatro.
Curioso que, como já tinha sido em Macunaíma, em 1978, mas de outra maneira, é o corpo que opera uma mudança também agora. O marco que Macunaíma foi, ao inaugurar o Teatro Coreográfico de Antunes Filho, passa por uma refundação com Policarpo Quaresma, que acaba de estrear em São Paulo, no Sesc Consolação.
Com Macunaíma, a dramaturgia começou a se tornar coreográfica porque elegeu a espacialidade como mestre de cerimônia da encenação. As soluções nasciam dos jeitos de mudar o formato aparentemente dado como pronto da caixa preta. Nela, Antunes foi desenhando as trajetórias de seus coros-procissões-blocos de rua, e regendo suas produções com os ritmos que ia marcando para as entradas, durações e saídas de cada cena. Mas agora, nesta sua 21.ª montagem, há algo de diferente se insinuando no seu sólido percurso de contribuições.
Referências caras. O papel que coube ao espaço passou a ser de responsabilidade do corpo. Em Policarpo Quaresma, é o corpo que constrói a dramaturgia, que é mestiça de teatro de revista, das bufonerias, irmãos Marx, comédia de costumes, Kazuo Ohno, circo e Pina Bausch, dentre outras tantas referências igualmente caras a seu diretor.
Ele está no teatro desde 1948, quando, como ator, fez Adeus Mocidade com o grupo amador de Osmar Rodrigues Cruz. Passados quase 62 anos, nos quais foi refinando uma assinatura de profunda coerência, inicia uma nova década de vida (completou 80 anos em dezembro, nasceu em 12/12/1929), e aponta novamente para adiante, com esse outro corpo que começa a aparecer. Um corpo que não domina somente os deslocamentos e as trajetórias, como antes, mas que explora modos não verbais de falar, inventa jeitos de se fazer presente e, assim, vai fazendo a peça acontecer a partir dele.
Nesse corpo, os figurinos e objetos de Rosângela Ribeiro funcionam como um outro tipo de texto. Ampliam os dizeres dos corpos do elenco afiado e afinado. A cena dos loucos ao som da Barcarolle dos Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, é um bom exemplo dessas texturas.
Preparação. Antunes dirigiu seu primeiro texto brasileiro em 1959 (Alô... 36-5499, de Abílio Pereira de Almeida), tendo Ademar Guerra como assistente e ainda com o Pequeno Teatro de Comédia que havia fundado no fim dos anos 50. Mas parece ter sido com o Sem Entrada, Sem Mais Nada, de Roberto Freire (1961), que a leitura política do entorno adentrou nos seus interesses, e se estende até este Policarpo Quaresma, no qual atualiza o que Lima Barreto (1881-1922) publicou em 1911, e também o Rio de Janeiro do fim do século 19 (1890) lá descrito. O que o livro conta em três momentos distintos, Antunes transformou em texto corrido - trabalho que ocupou quase dois anos de preparação e ensaios.
As contradições de um país em transição da monarquia para a República, e já corrupto, e já se fazendo à custa de violências, injustiças e arbitrariedades. A peça conta das contradições, ambiguidades e ambivalências que atravessam as duas viradas de século que nos separam desse tempo. Separam ou unem? Você tem somente até o dia 6 de junho para escolher. Esta é a data em que a temporada de Policarpo Quaresma se encerra.

Crítica: Jefferson Del Rios
O TRISTE FIM DE UM PATRIOTA DESLOCADO

As grandes cenas de Policarpo Quaresma, adaptado da obra de Lima Barreto, lembram as tomadas gerais e os planos sequência de cinema. Como, por exemplo, a do majestoso baile de O Leopardo, de Luchino Visconti. Pode-se evocar igualmente Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Fellini porque Antunes Filho é um encenador de palco com sensibilidade de cineasta e de artista plástico. A montagem dá continuidade à estética iniciada com Peer Gynt, de Ibsen (1971), consolidada com Macunaíma, de Mário de Andrade (1978), e os ciclos Nelson Rodrigues, tragédias gregas e o universo de Ariano Suassuna (A Pedra do Reino). Sem esquecer os bons efeitos plásticos conseguidos com Shakespeare, Guimarães Rosa, Jorge Andrade. O resultado é emotivo e espetacular mesmo sem transmitir por inteiro o sabor da escrita descritiva e colorida do original (O Triste Fim de Policarpo Quaresma). O escritor, amoroso retratista do Rio de Janeiro do início do século 20 e criador de tipos formidáveis, exigiria, talvez, horas de representação. O espetáculo está mais direcionado para os focos ideológicos do romance; este é o objetivo de Antunes.
São Paulo novamente faz justiça a Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), que prossegue subestimado, embora, paradoxalmente, se lhe confira a estatura de Machado de Assis. Em 1956, a Editora Brasiliense editou as obras completas (volumes bem acabados, com capas do pintor gaúcho Edgar Koetz). Agora, o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) tira uma vez mais do silêncio o "mestiço neto de Gogol" na descrição do crítico Agrippino Grieco, que o nomeou "o maior e mais brasileiro dos nossos romancistas, o nosso primeiro criador de almas. Ele sentiu a tristeza e o humor que cabem na vida do pobre. Todo o Rio está na sua obra. Outros romancistas podem inspirar-nos maior admiração; nenhum outro pode inspirar-nos tamanho amor".
O combativo Grieco sentiu em Lima Barreto o "sarcasta comovido e áspero" (também uma possível definição para José Alves Antunes Filho). Tais características estão evidentes no enredo caricato e acusador em que o Major Policarpo Quaresma é o nacionalista excêntrico e deslocado no tempo. Defende o tupi e a modinha como língua e música legítimas e oficiais, e tem uma ideia irreal da agricultura. Preconiza, de certa forma, o estranho nacionalismo de uma ala do movimento modernista da qual fez parte Plínio Salgado, o idealizador do integralismo. Mas tais fantasias nativistas esbarram na truculência do início militar da República, sobretudo no governo do Marechal Floriano Peixoto.
Ressonâncias. Por motivos afetivos e familiares, Lima Barreto não se entusiasmou com a queda da monarquia. Escapou, porém, da nostalgia conservadora ao se preocupar com o viés autoritário do pensamento positivista vigente nos quartéis. Com a brutalidade da repressão armada aos movimentos oposicionistas ou o ímpeto patrimonialista das elites e a corrupção na máquina administrativa. Sua ficção teve ressonância na busca de Antunes por retratos/sínteses do Brasil, e o resultado está no atual Policarpo em forma de libelo ilustrado por imagens fortes. A linguagem do espetáculo é uma brilhante fusão de comédias antigas de cinema, musical, melodrama radiofônico e circo. Paira sobre a ação um clima de tango e charge humorística. O sarcasmo chega ao auge no número de sapateado do Hino Nacional, momento de inevitável impacto simbólico. Os personagens têm intervenções rápidas, exceto o Major bem interpretado por Lee Thalor, o que não impede aos demais participantes precisos lances criativos, caso de Geraldo Mario que se faz notar em uma encenação que tem sua força baseada no coletivo.
A imagem emblemática do drama nacional emerge no desamparo do sonhador iludido, na derrota de Policarpo Quaresma. O espetáculo fixa aí o Brasil do ranço burocrático e da odiosa divisão da sociedade em "estamentos", como apontaria Raymundo Faoro em Os Donos do Poder. Numa espécie de fulguração, os caminhos de Lima Barreto e de Antunes Filho se cruzam no patético com poesia; e tudo está dito.

Crítica: Mariangela Alves de Lima
A SOLIDÃO DE UM HERÓI E AS PAIXÕES MALOGRADAS

Há mais de três décadas um herói sem caráter protagonizou o primeiro trabalho do grupo experimental dirigido por Antunes Filho. Figura emblemática do modernismo, Macunaíma foi, também para o teatro, a encarnação do hibridismo, da apropriação indiscriminada de diferentes práticas culturais e artísticas e, sobretudo, da rebelião contra as distinções hierárquicas entre o popular e o erudito e entre a tecnologia e o artesanato na produção das manifestações artísticas.
Nas décadas seguintes o Centro de Pesquisa Teatral, incorporado ao Sesc, reafirmou, com ênfases diferentes, um ou outro corolário do projeto modernista. Quem examinar de perto as idéias e formalizações do CPT reconhecerá contornos nítidos ou esmaecidos das idéias e formalizações de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Noêmia Mourão, Oswald de Andrade e Raul Bopp. Não só isso, porque, tendo como desígnio e prática ligar estreitamente o palco ao estudo teórico, o CPT mobilizou para a produção do seu repertório a historiografia, os estudos antropológicos e a vertente crítica sintonizada com as teses modernistas.
Agora, outro herói, este de muito caráter, sinaliza a ruptura temporária no desfile de obras que, ainda que de modo irônico, celebram as especificidades das civilizações americanas. Em Policarpo Quaresma, a nostalgia da origem e o orgulho da singularidade nacional confundem-se com a aspiração de pureza, quase de santidade - e é deste modo que Lima Barreto define sua personagem: "Desinteressado do dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d"alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixa, os grandes estudiosos, os sábios e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua e mais inocente que as donzelas dos poemas de outras épocas."
Fracasso. Ensopado de nativismo romântico, retemperado pelo cientificismo do final do século 19 que corrigiu os exageros dos primeiros anos da Independência, o pobre Major Quaresma é o antagonista natural da voga multiculturalista. Só sabe valorizar seu país natal. E o final trágico a que o destina seu criador é, entre outras coisas, o reconhecimento do fracasso do idealismo.
Na perspectiva do diretor Antunes Filho, responsável pela adaptação de Triste Fim de Policarpo Quaresma e pela direção do espetáculo, a pátina resignada e amorosa que reveste o protagonista do romance é descartada de fora para dentro, ou seja, tudo o que o ingênuo Quaresma do espetáculo toca e vê é, do ponto de vista do espectador, de escasso valor estético. É singelo o gosto artístico suburbano e igualmente pobres são as festas que animam a vida de Policarpo e seus vizinhos. O que interessa no espetáculo é imaginação visionária desse Quixote da classe média. Embora ferozmente crítico das instituições, há no romance ambiguidades que fazem supor beleza nas canções ou verdadeira erudição no repertório cultural amealhado pelo infatigável empenho do major em conhecer sua terra. Arquitetado sob a hegemonia da escola realista, o romance faz justiça aos encantos do sarau suburbano, interessa-se pela descrição dos costumes e da paisagem, atribui valor positivo a aspectos da natureza tropical. Enfim, "vistos assim, do alto, os subúrbios têm a sua graça".
Grão de loucura. No espetáculo, o sobrevoo não tem muita importância. Na adaptação de Antunes Filho, as cenas eliminam referentes de situação, como descrição de interiores, relações humanas e paisagens urbanas. Em parte o desbaste elimina ganchos cuja função seria a de prender o leitor ao livro cuja primeira publicação foi seriada. Dramática e mais abstrata, a encenação simboliza movimentos coletivos por cortejos que atravessam o palco no sentido longitudinal, algumas vezes de modo lânguido como os cortejos funéreos, outras vezes retilíneos como as paradas militares. De qualquer modo, as circunstâncias representadas pelos cortejos são semelhantes no seu deslizar fluido, sem propósito evidente, prestes a se dissolver quando se aproximam do ponto de invisibilidade. Nada sugere a continuidade dos grupos, antes ou depois de entrar em cena. O universo sufocante das repartições públicas, a politicagem tacanha da província e a corrupção e violência da Primeira República são formalizados como fatores semelhantes em uma soma cujo resultado é a solidão desse herói "tocado por um grão de loucura".
No cerne do espetáculo, como um sentido unívoco, está a paixão malograda que, neste caso, são duas paixões malogradas. Há um paralelismo de tratamento que torna equivalentes, como apelo emocional e sedução estética, os sofrimentos de Policarpo e Ismênia. Como impulso para o ato ou como razão para viver, o mito da nação e o mito do matrimônio se equivalem. Tanto faz. Despojada, quase caricata ao apresentar de modo sumário o cancioneiro, as lendas e as fontes das pesquisas de Policarpo, a encenação engrandece o desejo e deixa de lado a proporção menor da coisa desejada. Prometeu e Policarpo têm a mesma estatura, pertencem ambos ao território sem fronteiras da tragédia.

Crítico Convidado: César Augusto
SOCO NO ESTÔMAGO: BOM PARA O TEATRO, BOM PARA O CIDADÃO

Antunes Filho demonstra a mesma capacidade de sempre de enlevar o espírito da plateia no espetáculo Policarpo Quaresma - adaptação para o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto - com o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc.
Adaptar um romance para o teatro não é tarefa simples, porque implica na maioria das vezes em fazer escolhas. Nesse sentido, um leitor do romance, talvez, sinta falta de uma ou outra cena que ampare o sofrimento de Ismênia (Natalie Pascoal) ou a conduta de Olga (Tatiana Lenna). Essas lacunas, porém, não fazem falta, porque a linha de força dramática escolhida aproveita essas circunstâncias "secundárias" como espelho distorcido do sofrimento ou como paroxismo das "loucuras e devaneios" do Major Policarpo Quaresma (Lee Thalor). Com isso, Antunes põe uma lupa no caráter do Major e enxerga aspectos que lembram personagens de Ibsen (como Solness cujo desejo é o de edificar uma torre utópica, símbolo da sociedade) e de Herzog (como Aguirre, que, sucumbindo sobre uma jangada destruída, ainda tem sonhos de glória), além dos já investigados Macunaíma e Quaderna. Este procedimento dramatúrgico ajuda a transpor da estrutura literária o que há de teatralidade.
Assim é que Antunes joga com o tempo e o espaço na cena, criando um sistema que imbrica as antíteses: claro e escuro, entropia (desordem) e neguentropia (equilíbrio), adágio e vivace, solenidade e derrisão, sublime e grotesco, cômico e trágico, ideal e real. Isso provoca uma sensação de suspensão à dinâmica da peça. Dentre eles, destacam-se a cena inicial, mais do que um prenúncio, ela estampa, com ironia, o suplício, o escárnio e a tragédia a que Policarpo será submetido, os loucos do hospício para o qual ele foi enviado, a dança que mata as formigas - culminando com o sapateado do Major sob o Hino Nacional, os desfiles-cortejos das mortes de Ismênia e dos soldados, inspirados em Tadeusz Kantor, e o irônico tango de Marcos de Andrade e Fernando Aveiro.
Por tudo isso, embora Antunes admita gostar de personagens picarescos e Policarpo tenha este lado também, como Macunaíma e Quaderna - parece que o riso e o escárnio, em vez de linhas condutoras, são válvulas de escape que dão respiro ao subterrâneo trágico do Major. Vale dizer que uma coisa não exclui a outra, e sim se complementam, aumentando as contradições.
Depois de tudo isto, é um triste fim ou feliz?
Feliz, pois o talento de Antunes e dos atores faz as pessoas contemplarem e se alienarem positivamente, no sentido empregado por Adorno, ao fenômeno estético.
E, ao mesmo tempo, triste porque o substrato político de Lima Barreto - que diz ter visto "com desgosto a implantação da República", através de patrulhas armadas, e "a falta de consciência civil" - parece mostrar que teorias como o positivismo ("filho tardio do Iluminismo com seu projeto de racionalidade", segundo Eric Hobsbawm) em parte não funcionaram e não funcionam, no Brasil, onde, de acordo com o diretor, as tragédias são muitas vezes "baseadas em atos risíveis". Mas, se por outro lado o relativismo também não tem ajudado muito, o que fazer? É nessa encruzilhada que Antunes através da peça parece colocar a todos, inclusive a si próprio.
A peça é um soco no estômago: escancara nossa predisposição em lutar pelo direito à preguiça. O público veste, com Policarpo, a mortalha da cena final, fica também derreado, e, ainda assim, entende que, apesar da utopia natimorta, é preciso ser "dado ao maravilhoso", como diz Lima Barreto, "ao mistério", é preciso dançar, ainda que seja num canto escuro e só. Bom para o teatro, bom para o cidadão.
César Augusto é ator, diretor e professor de teatro. Atuou no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) do Sesc por seis anos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Reflexão inquieta sobre o ufanismo

Macksen Luiz, Jornal do Brasil
SÃO PAULO - Antunes Filho não se intimida diante do texto de Lima Barreto e volta às suas obsessões estéticas

Até o seu triste fim, Policarpo Quaresma experimentou, com patriotismo ingênuo, a amarga farsa do exercício da nacionalidade. Vítima de ilusão patriótica, adquire a consciência, herói ridículo da própria invenção de sociedade sustentada por suas raízes fundadoras, de sucessivas derrotas diante de um mundo que o transforma em bufão de suas idéias. O hospício, ao qual é levado por sua defesa da língua tupi-guarani, abriga a primeira decepção, seguindo-se a frustrada tentativa de reformar a agricultura, irremediavelmente vencido pela ação da baixa política e pela voracidade das formigas. Não menos decepcionante é sua adesão à defesa da nação, em revolta secessionista, quando fica frente a frente ao poder da corrupção e da comédia da artilharia. Deste percurso, Policarpo conclui que “fizera a tolice de estudar inutilidades”, e que a pátria é pouco mais do que uma quimera. O romance de Lima Barreto, lançado em 1911, trata de um anti-herói, patético em seus propósitos, risível nas suas inalcançáveis pretensões, que desfia fracassos como alguém que foi devorado por um Brasil real, pelo persistente país de fancaria.
A adaptação de Antunes Filho, em cartaz no Teatro Sesc Anchieta, na capital paulista, empreende retorno, “o eterno retorno” do diretor às suas obsessões estéticas e aos escaninhos da nacionalidade. É inevitável referenciar a atual montagem à de Macunaíma, que Antunes dirigiu há 32 anos. Se antes, o herói era desprovido de caráter, agora é íntegro, ambos identificados pelas semelhanças do país que os moldou. Se a cena de então determinava poética de brasilidade difusa, hoje se repete com o acréscimo de conotações mais palpáveis.
A transcrição do romance, essencialmente descritivo e com poucos diálogos, não intimidou o adaptador, que anteviu as possibilidades de enquadramento na sua rica moldura cênica. Há um tom farsesco, quase picaresco, que se destaca entre tantas outras memórias narrativas, criando humor em contraluz com lirismo. A movimentação dos atores, em conjunto e horizontalidade formal, é marca definitiva do diretor cultivada ao longo de várias montagens. A ausência de cenários, substituídos por adereços, figurinos, máscaras, maquiagem e máquinas de cena, individualiza o grupo, que em bloco ocupa o espaço com furor de personagem-massa.
Num desses “quadros vivos”, Antunes Filho reproduz com impacto visual e desenho crítico as obras pictóricas do positivismo, com sua exaltação à nacionalidade de estampa e de símbolos, e pelotões de vestais patrióticas e lábaros verde e amarelo. A imagética do diretor atinge o arrebatamento, quando ao som do Hino nacional, Policarpo sapateia como um alegórico dançarino de nossos males. A música, de modinhas, canções militares e valsa, é preponderante no estabelecimento desta atmosfera de brasilidade desiludida, de sonoridade arranhada pela rouquidão da desesperança, como revela o discurso final de Policarpo.
Nesta transcrição de Triste fim de Policarpo Quaresma por Antunes Filho, a sedimentação da gramática teatral do encenador respira por alguns novos poros, abertos pela inquietação de refletir sobre a nostalgia de um país, arduamente vivido, eternamente irrealizado. O bem orientado elenco realiza com a determinação do que lhe foi proposto a delirante e cética investigação sobre o que somos ou o que irredutivelmente fomos. A projeção, indiscutível, é do ator Lee Thalor, intérprete inteligente de Policarpo, macunaímica presença como artífice do desencanto.

Do blog do Luiz Carlos Merten

Na sexta, antes de viajar, fui ver o Policarpo Quaresma do Antunes. Amei! Embora nao seja um conhecedor profundo da obra do mestre, tenho o maior respeito por ele. Policarpo é Antunes no que tem de melhor. O espetáculo dialoga com Macunaíma, que Antunes já montou, na sua discussao sobre brasilidade. As cenas de movimentacao de grupo sao insuperáveis na sua beleza. Do pouco que conheco dele, acho que Antunes, aos 80 anos, nao apenas está firme e forte no palco, como está se revisando, ou revisitando. Gostei demais e pretendo voltar ao seu Policarpo, porque teatro bom é legal rever, como cinema.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Estado de S. Paulo: Antunes encena o 'Policarpo Quaresma' de Lima Barreto



Estado de S. Paulo, 25 de Março de 2010


Depóis de adaptar Nelson Rodrigues e Lamartine Babo, diretor se volta para clássico sobre raízes da república


Primeiro foi Nelson Rodrigues. Depois, Lamartine Babo. Agora, Antunes Filho encerra sua trilogia em homenagem ao Rio com Policarpo Quaresma, baseado no clássico ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’, de Lima Barreto. O diretor conta que a ideia de encenar esta fábula sobre as raízes da república nasceu de um desejo de dar ao livro a importância que ele merece.

Foto: Emídio Luisi

Para Antunes, Policarpo é um personagem fundamental da literatura brasileira. Mas a obra de Barreto é essencialmente descritiva e são os diálogos a matéria-prima do teatro. Como isso foi resolvido? "Com um trabalho insano", diz Antunes. O mergulho na nostalgia de um Rio dos anos 60 e 70 parece ter feito bem a Antunes, que se mostra ávido por novas criações. Ele diz que está cansado do debate sobre o papel do teatro contemporâneo. "Temos que discutir essas coisas todas, mas, mais do que nunca, o que me interessa é o humano."
A adaptação de ‘O Triste Fim de Policarpo Quaresma’, que estreia nesta sexta, 26, é oportuna. O crítico literário Ivan Teixeira classifica a obra como "uma espécie de oração principal em uma grande frase de protesto contra a sociedade de seu tempo". Tal como faz Antunes Filho. O diretor busca um teatro afinado com o presente. Ainda que considere que seu tempo (o dele e o seu) seja mal-interpretado por muitos contemporâneos.

Policarpo Quaresma - ONDE: Sesc Consolação. Teatro (320 lug.). R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. QUANDO: 6ª e sáb., 21h; dom., 19h. QUANTO: R$ 20.


sexta-feira, 26 de março de 2010

"Policarpo Quaresma" na Folha de S. Paulo


Antunes Filho estreia em SP adaptação de Lima Barreto

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES da Folha de S. Paulo
Filipe Redondo/Folha Imagem

Um turbilhão verde e amarelo arrasta Antunes Filho, 80. O diretor, que já recriou da Inglaterra vitoriana de Shakespeare à Noruega cinzenta de Ibsen, ultimamente não quer saber de nada que não seja genuinamente brasileiro. Prova disso é sua empreitada mais recente, a encenação de "Policarpo Quaresma", que estreia para convidados hoje, no Sesc Consolação.
Desde que encerrou seu ciclo de tragédias gregas, em 2005, Antunes dedica-se com afinco a pôr o país em relevo. Passou pela literatura barroca de Ariano Suassuna, voltou às tragédias de Nelson Rodrigues e agora desemboca no herói ingênuo de Lima Barreto (1881-1922).
"É um personagem que tem a estatura de Macunaíma e Riobaldo", diz ele, referindo-se ao protagonista do clássico "Triste Fim de Policarpo Quaresma".
Saudado pela crítica literária como uma espécie de Dom Quixote nacional, Quaresma é um homem pacato tomado por arroubos nacionalistas. Resolve aprender tupi, pregar mudanças para engrandecer o Brasil, mas termina desencantado.
Apenas para adaptar o livro a uma estrutura teatral, Antunes gastou seis meses. "Foi uma trabalheira danada. Transformei todas as descrições em diálogos e também criei alguns personagens para dar sustentação aos protagonistas", conta.
De resto, a tarefa de encenar a trama --que se passa em três momentos diferentes e será contada em ato único-- consumiu quase dois anos de preparação e ensaios.
Um percurso que foi interrompido, em 2009, por outras duas montagens: "A Falecida Vapt-Vupt" e "Lamartine Babo". Ambientadas no Rio de Janeiro, ambas compõem, ao lado de "Policarpo Quaresma", aquilo que Antunes denominou de trilogia carioca. O próximo trabalho, ele avisa, deve seguir por trilha semelhante e se embrenhar pelo célebre conto de Machado de Assis "O Alienista".
Em cada linha do romance de Lima Barreto, salta como pano de fundo um corrosivo retrato da sociedade carioca do século 20, em que a corrupção contamina a política e espraia-se por todas as relações sociais.
Para transportar isso ao palco, o espetáculo do grupo Macunaíma e do CPT abriu mão do cenário, dispensou os recursos de ambientação em uma determinada época e tratou de estabelecer um diálogo com o Brasil de hoje, conta Lee Thalor, que interpreta o personagem-título da montagem. "A crítica que o Lima Barreto fazia ainda está latente hoje", diz.
Antunes acrescenta outra preocupação: fazer um teatro popular. E, para isso, tratou de deixar de lado pretensas sofisticações e foi beber na fonte da "commedia dell'arte", do teatro de revista e dos irmãos Marx. "Queria fazer um espetáculo aberto, solto e dar de volta tudo aquilo que eu recebi do teatro. Tenho que me ajoelhar para agradecer a meus mestres, Ziembinski, Cacilda Becker. Será que eu vou conseguir?" Antunes promete que vai seguir tentando.


[Matéria publicada na Folha de S. Paulo no dia 26/03/2010]

Lima Barreto: Cenografias

Por Antunes Filho


Por que o CPT, que faz alguns dos seus espetáculos, inclusive agora Policarpo Quaresma, sem cenários, propõe no momento uma exposição com o título “LIMA BARRETO: CENOGRAFIAS”, não se trataria de um contra-senso? Obviamente, sabe-se que o fundo preto (neutro) sem cenário, com a mínima variação nas luzes, valoriza o ator (principal característica do CPT) nas suas atitudes, gestualidades e movimentos, trazendo para si a atenção plena do espectador.
Esta minha tendência vem lá de trás, de criança, do tempo que, felizmente, ainda não existia a televisão. Duas atrações seduziam-me além dos jogos e das brincadeiras: o cinema, nas matinês de quinta feira, as sessões zig-zag aos domingos de manhã e alguns programas de rádio dos quais eu era ouvinte assíduo. Foi a radiofonia, tenho certeza que me atiçou o imaginário. Otavio Gabus Mendes inovador da rádio no Brasil e também cineasta muito me influenciou e me educou na época com seus programas na Record.
Acompanhava tanto suas excelentes críticas cinematográficas que transmitia diariamente na hora do almoço quando chegava da escola, como as radiofonizações dominicais de grandes filmes (ele era fissurado em Orson Welles, Jonh Ford, William Hellman, Frank Capra etc...etc...). A minha cabeça ia para o espaço com as falas e as personagens que os atores interpretavam; lá ia eu esboçando nebulosamente ambientes, cenários dos mais incríveis. Deitava nas sensações dos meus devaneios, dos meus sonhos.
Depois, o teatro moderno, e em especial Kazuo Ohno e algum Bob Wilson, fizeram-me aterrisar através de suas encenações mais fundo no meu inconsciente.
Kazuo Ohno, por exemplo, no primeiro plano, diluía-se na sua dança, criando-me visões fantásticas, projetadas através dele no fundo neutro. Ele desaparecia e eu permanecia na poltrona abismado, estarrecido e maravilhado. Transcendia. Tomava consciência que não era somente a fala, mas também o jogo de corpo, ambos, responsáveis pelos movimentos básicos do sobrevôo. Cenários, painéis, penduricalhos de qualquer ordem interfeririam na ânimo folha branca do expectador.
A exposição “Lima Barreto: Cenografias” é uma tentativa de mostrar o registro destas incursões que fazemos através da nossa neblina interior. Provocar a subjetividade: cada leitor ou expectador cenografar a obra para si mesmo.
Novos artistas cenógrafos foram chamados para cada um a sua maneira, colocar o seu depoimento imagistíco de uma obra que escolhesse do autor. É um duplo empreendimento do curso do CPT que julgo de maior relevância: a amostragem de novos cenógrafos para o mercado com seus sonhos poéticos como também a mais justa homenagem a este grande escritor social Lima Barreto (que quase sempre é injustamente colocado à margem) Então, duas exposições em uma só?
Quero acrescentar que os estimulei a tentarem nas suas idealizações aproximarem a cenografia o mais que possível das outras irmãs das artes plásticas: a pintura e a escultura. Descompartimentar o trabalho possível de vícios da própria linguagem cenográfica. Novos ares. Venha ver uma e veja duas exposições.
[Este texto foi escrito para o catálogo da exposição "Lima Barreto: Cenografias"]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Epígrafe à direção de POLICARPO QUARESMA

Podemos, se quisermos, classificar as alienações em toleráveis e intoleráveis: há momentos na história em que elas se entrecruzam provocando tragédias irreparáveis por (ou apesar de) terem sido baseadas em atos risíveis de opereta de segunda categoria, onde as bravuras não foram senão bravatas.

Antunes Filho

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma prévia de POLICARPO QUARESMA



Terceira parte da Trilogia Carioca do CPT, POLICARPO QUARESMA estréia no final de março. Enquanto isso, alguns lampejos da nova peça.






Adaptação teatral da obra de Lima Barreto, Policarpo Quaresma narra os primórdios da República com as principais contradições que fundaram esta complexa sociedade. O amor à pátria do mais significativo anti-herói da Literatura Brasileira leva-o as últimas consequências ao pensar a cultura do seu povo e acreditar no regime político de "ordem e progresso".





[Crédito das fotos: Emídio Luisi]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Trilogia Carioca de Antunes Filho

Por Rogério Guarapiran

O Rio de Janeiro desde 1808, capital do Império, com a chegada da família real protagoniza transformações de costumes na sociedade brasileira de forma relevante. Com a proclamação da República teve seu período de capital federal 1889-1959. O poder político e moral da nação se concentrou naquele espaço urbano nascente e de terreno irregular, centro que marcou profundamente as futuras experiências do nosso regime político ainda vigente. A trilogia carioca de Antunes Filho faz o recorte de momentos decisivos e plurais dessa cidade. As obras encenadas percorrem um sentido inverso na linha do tempo, tratam do cotidiano: a tragédia carioca e suburbana da Falecida (1953), de Nelson Rodrigues. A música popular com o drama-musical sobre Lamartine Babo (1904-1963), texto inédito de Antunes Filho. E o cenário político fica a cargo de Policarpo Quaresma (1911), de Lima Barreto adaptado pelo diretor.
Em Nelson Rodrigues os costumes impudicos e privados veem à tona, através de um casal suburbano. A montagem ágil e dinâmica faz perturbar a percepção, incomoda o olhar ao mesmo tempo que o bom humor prevalece nas concepções e interpretações. Antunes descobriu novamente como não montar Nelson “como se deveria”, mas só como um artista propositor e desafiante.
Lamartine Babo é um divertido musical que trata sobre um dos mais importantes compositores carioca que atuou na chamada Época de Ouro da MPB (anos 30). Na forma de um ensaio musical, faz-se um passeio pela sua obra. Um estranho observador pontua a biografia de Lamartine sem desvendar o mistério de seu domínio sobre o assunto.
Com Lima Barreto, Antunes fecha a trilogia e também abre pela sua importância histórica. O desafio seguido pela adaptação e encenação resulta num grandioso e criterioso trabalho compactuado com toda equipe. Mas nesse sentido do grande épico, cabe genialmente o simples, opções poéticas e maturidade para teatralizar o exame crítico do romancista.
É oferecido ao público, entre uma obra e outra, muitas correlações para se extrair, como a reflexão de que no Rio Antigo foi o nascedouro de várias tendências para nosso modo de vida político, cultural, artístico, com todo a beleza, repúdio, alegria, ódio, riqueza, indiferença, multiplicidade, injustiça. Um sistema complexo de que dá mostras as encenações. Chega a nós de hoje perguntas atualizadas sobre o passado recente do país.